Em boa parte dos programas de rastreamento da Europa, nenhuma mamografia é liberada depois de passar pelos olhos de um único profissional: duas leituras independentes, feitas por dois radiologistas diferentes, são exigência obrigatória antes de o resultado chegar até a paciente. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues destaca que essa prática, conhecida como dupla leitura, ainda é exceção e não regra na maior parte dos serviços brasileiros, mesmo havendo evidência nacional consistente de que ela aumenta a detecção de câncer sem disparar um número relevante de convocações desnecessárias.
Um estudo conduzido em um grande laboratório privado paulista, com mais de 22 mil mamografias analisadas ao longo de um ano, mostrou que a segunda leitura encontrou nove carcinomas adicionais que haviam passado despercebidos na primeira avaliação, a maioria já em estágio inicial, elevando a taxa de detecção em 8,5%, com um índice extra de reconvocação de apenas 1,8%. Entender por que essa prática, tão consolidada em outros países, ainda engatinha no Brasil ajuda a explicar uma das diferenças menos visíveis, porém mais relevantes, entre sistemas de rastreamento ao redor do mundo.
Como funciona, na prática, a dupla leitura de uma mamografia?
O processo é relativamente simples de descrever, embora exigente de aplicar em larga escala: dois radiologistas especializados em imagem mamária analisam o mesmo exame de forma independente, sem que o segundo profissional necessariamente conheça o resultado do primeiro antes de emitir sua própria opinião. Quando há divergência entre as duas leituras, o caso costuma ser discutido em conjunto até se chegar a um consenso, ou é encaminhado para um terceiro especialista atuar como árbitro. Esse modelo é padrão obrigatório dentro dos programas organizados de rastreamento em vários países europeus.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, a razão pela qual esse método funciona tão bem é simples: cada profissional, por mais experiente que seja, tem variações naturais de atenção e de padrão de reconhecimento visual, e uma segunda avaliação independente capta justamente aquilo que escapou à primeira. Para ele, esse tipo de checagem cruzada é comparável a qualquer sistema de controle de qualidade sério, no qual mais de um olhar reduz a margem de erro humano inevitável em qualquer atividade complexa.
O que os dados brasileiros mostram sobre essa prática?
O estudo paulista mencionado anteriormente detalhou ainda mais o perfil dos casos adicionais encontrados pela segunda leitura: cerca de metade era composta por carcinomas ductais in situ, e o restante por tumores invasivos pequenos, com até um centímetro e meio. Todos os cânceres adicionais identificados estavam em estágio zero ou um, justamente a fase em que o tratamento tende a ser menos agressivo e o prognóstico mais favorável. O aumento de reconvocações provocado pela segunda leitura foi baixo, e a grande maioria desses casos extras acabou se confirmando como achado benigno após investigação complementar.

Na visão do médico radiologista, Dr. Vinicius Rodrigues, esses números mostram um custo-benefício bastante favorável: um pequeno acréscimo de exames complementares em troca de um ganho relevante na detecção precoce. Ele argumenta que esse tipo de evidência nacional deveria pesar mais nas discussões sobre qualidade dos programas de rastreamento no Brasil, e não ficar restrito a publicações técnicas pouco conhecidas fora do meio radiológico.
Por que essa prática ainda não é padrão na rede brasileira?
Colocar dois radiologistas para analisar cada exame significa, na prática, dobrar a carga de trabalho especializado necessária para sustentar um programa de rastreamento, o que esbarra diretamente na escassez de profissionais dedicados à imagem mamária fora dos grandes centros urbanos. Além disso, diferentemente de países com programas organizados e regulamentados de rastreamento, o Brasil não possui uma exigência formal, seja no SUS, seja na saúde suplementar, que torne a dupla leitura um critério obrigatório de credenciamento para serviços de mamografia.
Para o Dr. Vinicius Rodrigues, esse é um ponto que a gestão pública ainda trata como secundário, priorizando historicamente metas de cobertura, ou seja, quantas mulheres realizaram o exame, em detrimento de metas de qualidade da interpretação desse exame. Ele pondera que qualquer política séria de rastreamento precisa equilibrar as duas dimensões, já que um exame mal interpretado tem valor limitado mesmo quando realizado dentro do prazo recomendado.
A inteligência artificial pode assumir o papel do segundo leitor?
Algumas instituições brasileiras já começaram a testar sistemas de apoio computacional funcionando justamente como esse segundo leitor, sinalizando áreas suspeitas para arbitragem rápida em casos de discordância com a leitura humana. Iniciativas desse tipo, ainda em fase de validação no Brasil e em outros países da região, prometem tornar viável em escala algo que seria financeiramente inviável se dependesse apenas de dobrar o quadro de radiologistas disponíveis.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues vê esse caminho com otimismo moderado. Para ele, a tecnologia pode democratizar um padrão de qualidade historicamente restrito a serviços bem estruturados, desde que a validação desses sistemas continue avançando com rigor e que a decisão final sobre cada caso permaneça sob responsabilidade do radiologista, e não do algoritmo isoladamente.
A ideia de que uma única leitura é suficiente para garantir a qualidade de um programa de rastreamento populacional já perdeu espaço em boa parte do mundo, sustentada por décadas de evidência acumulada. O Brasil, apesar de já produzir pesquisa própria consistente sobre o tema, ainda trata a dupla leitura como diferencial de poucos serviços, em vez de padrão mínimo esperado.
Ou seja, reduzir essa distância não depende de nenhuma tecnologia revolucionária, mas de reconhecer que a qualidade da interpretação de um exame é tão importante quanto o acesso a ele. Enquanto essa mudança de prioridade não se consolida em política pública, vale a pena que cada mulher pergunte, ao agendar sua mamografia, se o serviço escolhido adota algum tipo de segunda avaliação para o seu exame.
