Você provavelmente consegue lembrar da última refeição que fez. Mas consegue dizer, com a mesma certeza, se realmente estava com fome naquele momento? Essa é uma pergunta que parece simples, mas que revela uma das maiores mudanças no comportamento alimentar da sociedade moderna. Em meio a dias corridos, excesso de estímulos e uma rotina marcada por decisões rápidas, muitas pessoas passaram a comer por impulso, por ansiedade, por hábito ou apenas porque a comida estava disponível. A fome, que durante milhares de anos foi o principal sinal para iniciar uma refeição, deixou de ser a única protagonista dessa decisão.
Lucas Peralles, nutricionista esportivo, fundador do Método LP e referência em nutrição esportiva em São Paulo, observa que esse fenômeno tem despertado cada vez mais atenção entre pesquisadores da área da saúde. O avanço dos estudos sobre comportamento alimentar mostra que o organismo continua enviando sinais claros de fome e saciedade, mas eles frequentemente são interrompidos por fatores externos, como estresse, distrações, excesso de trabalho e o fácil acesso aos alimentos. Compreender como isso acontece é fundamental para quem busca emagrecimento sustentável, recomposição corporal e uma relação mais equilibrada com a alimentação.
O cérebro moderno está recebendo estímulos que nunca existiram antes?
Durante grande parte da evolução humana, encontrar alimento exigia tempo, esforço e planejamento. Hoje, a realidade é completamente diferente. Em poucos minutos, qualquer pessoa consegue pedir uma refeição pelo celular, comprar alimentos prontos em praticamente qualquer lugar ou ser impactada por dezenas de propagandas de comida ao longo do dia. O ambiente se tornou tão rico em estímulos que o cérebro passou a receber incentivos constantes para comer, mesmo quando não existe uma necessidade fisiológica.
Inclusive, alimentos ultraprocessados são desenvolvidos para estimular intensamente o sistema de recompensa cerebral, combinando açúcar, gordura, sal e aromas capazes de aumentar o desejo por novas porções. Ao analisar essa transformação, Lucas Peralles retrata que o cérebro nem sempre diferencia esses estímulos de uma necessidade real de energia. Como consequência, muitas pessoas passam a comer simplesmente porque sentiram vontade, e não porque o organismo realmente precisava de alimento.
Por que emoções e cansaço podem ser confundidos com fome?
Nem toda vontade de comer nasce no estômago. Um dia estressante, uma discussão, uma reunião desgastante ou até algumas noites mal dormidas podem alterar a forma como o cérebro interpreta as necessidades do corpo. Nessas situações, buscar alimentos altamente palatáveis representa uma tentativa rápida de produzir sensação de conforto e recompensa, ainda que esse alívio dure apenas alguns minutos.
Outro fator importante é a privação de sono. Quando dormimos pouco, ocorre um desequilíbrio em hormônios que regulam a fome e a saciedade, aumentando o desejo por alimentos ricos em açúcar e gordura. Diante desse cenário, Lucas Peralles evidencia que muitas pessoas acreditam estar enfrentando uma fome intensa quando, na realidade, o organismo está sinalizando cansaço físico, desgaste mental ou necessidade de recuperação. Entender essa diferença representa um passo importante para desenvolver autonomia alimentar e fazer escolhas mais conscientes.
Por que conhecer os alimentos nem sempre resolve o problema?
Hoje, existe uma quantidade enorme de informações disponíveis sobre alimentação. Vídeos, redes sociais, aplicativos e conteúdos especializados ensinam diariamente o que deveria ou não fazer parte de uma dieta equilibrada. Mesmo assim, milhões de pessoas continuam encontrando dificuldades para manter hábitos saudáveis. Isso acontece porque saber o que comer não significa, necessariamente, conseguir colocar esse conhecimento em prática.

É justamente por isso que, segundo Lucas Peralles, o Método LP vai além da elaboração de um plano alimentar. Na Clínica Peralles, a metodologia busca compreender os comportamentos que levam às escolhas alimentares, identificando gatilhos emocionais, padrões automáticos e situações que favorecem decisões impulsivas. O objetivo é desenvolver autonomia para que o paciente consiga fazer boas escolhas mesmo quando enfrenta mudanças de rotina, viagens, eventos sociais ou períodos de maior estresse. Quando a transformação acontece no comportamento, os resultados deixam de depender exclusivamente de regras e passam a fazer parte do estilo de vida.
É possível reaprender a reconhecer a fome verdadeira?
Embora a rotina moderna favoreça decisões automáticas, isso não significa que a percepção da fome tenha sido perdida definitivamente. Assim como determinados comportamentos foram aprendidos ao longo dos anos, eles também podem ser modificados por meio da construção de novos hábitos. Pequenas atitudes, como realizar refeições com mais atenção, reduzir distrações durante a alimentação, respeitar intervalos adequados entre as refeições e observar os sinais emitidos pelo corpo, ajudam a reconstruir essa conexão.
Lucas Peralles acredita que o futuro da nutrição estará cada vez mais relacionado ao comportamento alimentar. O sucesso de uma estratégia não dependerá apenas da quantidade de calorias ou da escolha dos alimentos, mas também da capacidade de cada pessoa interpretar corretamente as mensagens do próprio organismo. Quando o cérebro deixa de responder apenas aos estímulos externos e volta a considerar as necessidades reais do corpo, torna-se muito mais fácil construir hábitos consistentes e sustentáveis.
Aprender a ouvir o corpo pode ser uma das mudanças mais importantes para a saúde
A alimentação vai muito além do ato de comer. Ela envolve decisões, emoções, rotina, ambiente e comportamento, fatores que influenciam diretamente a saúde metabólica e a capacidade de manter resultados ao longo da vida. Por isso, compreender por que sentimos vontade de comer é tão importante quanto saber quais alimentos colocar no prato.
Em suma, Lucas Peralles salienta que desenvolver autonomia alimentar significa recuperar a capacidade de confiar nos sinais do próprio organismo. Mais do que seguir uma dieta, aprender a diferenciar fome, impulso e cansaço permite construir uma relação mais equilibrada com a comida, favorecendo o emagrecimento sustentável, a recomposição corporal e uma qualidade de vida que possa ser mantida por muitos anos.
